A participação na Conferência Internacional sobre Pescas e Aquicultura Sustentável (CIPAS) 2025 trouxe-nos uma constatação clara: o debate sobre financiamento azul deixou de ser apenas técnico; tornou-se um imperativo estratégico para o futuro do País. A reflexão sobre “Soluções Financeiras e Investimento Sustentável” revelou que o desenvolvimento da Economia Azul exige uma visão mais profunda: uma visão que integre ciência, política, economia e responsabilidade geracional.
É neste cruzamento de ideias e necessidades que surge esta breve reflexão sobre o papel dos financiamentos e investimentos dedicados ao avanço da Economia Azul em Angola.
Lacunas, Potenciais e Oportunidades Financeiras
Ao intervir na referida conferência, a Sra. Ministra das Pescas e Recursos Marinhos, Prof. Dra. Carmen do Sacramento Neto, sublinhou que o encontro permitiu clarificar lacunas científicas e metodológicas que ainda limitam a gestão sustentável dos recursos marinhos (DEMBENE: Jornal Economia & Finanças, edição n.º 945). Esta constatação é reveladora: antes de falarmos em financiamento, precisamos de reconhecer que o conhecimento científico é o primeiro capital que sustenta qualquer estratégia de economia oceânica.
Mas a realidade mostra que, para além das lacunas técnicas, persiste uma fraca mobilização de recursos para projectos concretos de Economia Azul: projectos capazes de regenerar ecossistemas, fortalecer comunidades costeiras e impulsionar a competitividade nacional.
Reflectir sobre a Economia Azul é, portanto, compreender que ela não é apenas um sector económico. É uma oportunidade:
– de diversificar a economia;
– de criar empregos formais;
– de projectar Angola regionalmente;
– e, sobretudo, de melhorar a vida das populações que dependem do mar.
Como reforçou o Sr. Secretário de Estado para as Finanças e Tesouro, Dr. Ottoniel dos Santos, trata-se de “uma grande oportunidade para o crescimento sustentável do país e para a melhoria da qualidade de vida das comunidades costeiras” (CIPAS 2025).
Contudo, para que esta oportunidade se materialize, o País deve ultrapassar o desafio central: o acesso ao financiamento certo, na escala certa e com a visão certa.
É neste ponto que a Blue Finance surge como instrumento transformador. Não se trata apenas de um novo produto financeiro, sobretudo na realidade angolana, mas de uma nova forma de pensar o desenvolvimento, que articula sustentabilidade, ciência, investimento e responsabilidade global. A Blue Finance, segundo o IFC (2025), ajuda a enfrentar urgências económicas e ecológicas, criando valor enquanto protege a base da vida: os oceanos.
O Desafio Angolano: Transformar Potencial em Acção
Angola possui uma das maiores extensões costeiras da região e, ainda assim, o número de projectos estruturantes no domínio da Economia Azul é reduzido. Isto revela uma questão essencial: o potencial existe, falta transformá-lo em oportunidade real.
Os instrumentos de financiamento (nacionais ou internacionais) não substituem a necessidade de estratégia, liderança e visão. Por isso, a mobilização de fundos deve caminhar a par da mobilização do conhecimento, da inovação e das instituições.
O sistema bancário e os organismos internacionais, especialmente aqueles orientados para critérios ESG, dispõem de capitais significativos. Mas só os canalizam para países que demonstram clareza estratégica, capacidade técnica e projectos credíveis. Angola tem aqui uma vantagem competitiva por explorar.
O IFC recorda-nos que “a economia oceânica sustenta mais de 100 milhões de empregos” e poderá superar os 5 biliões de dólares até 2050 (IFC, 2025). O desafio é saber qual a fatia desta economia que Angola está realmente preparada para captar, e quanto está disposta a investir para o conseguir.
O Papel Incontornável do Estado
Em Angola, o Estado deve assumir um papel verdadeiramente estruturante no ecossistema de financiamento azul. Não basta criar incentivos fiscais ou apresentar garantias financeiras: é preciso liderar a visão, criar confiança, definir prioridades e assegurar que existe uma ponte sólida entre ciência, política e investimento.
O futuro da Economia Azul depende de um Estado que:
– invista directamente em investigação aplicada;
– promova incubação de projectos inovadores;
– articule políticas de longo prazo;
– e mobilize parcerias internacionais de impacto.
Quando a política pública dá o exemplo, o sector privado segue com confiança.
IFC e a Nova Arquitectura da Blue Finance
A aprovação de 232 mil milhões de kwanzas para projectos das pescas e recursos marinhos entre 2023 e 2025 no País, com mais de 85% já financiados, dados anunciados pelo Sr. Secretário de Estado para as Finanças e Tesouro de Angola durante a CIPAS, demonstra que existe vontade política e capacidade para avançar. Porém, é apenas o início.
Os Blue Bonds e Green Bonds emergem como instrumentos que podem transformar por completo o modo como Angola financia a sua transição azul.
A publicação do Guideline for Blue Finance 2.0 pelo IFC, em Setembro de 2025, reforça aquilo que os especialistas há muito defendem: os países que compreenderem estas directrizes serão os que atrairão o maior volume de capitais internacionais na próxima década.
As novas directrizes não são apenas técnicas; são estratégicas. Ajudam a definir indicadores, medir impacto, estruturar projectos e torná-los financiáveis a nível global. Representam, portanto, um caminho concreto para Angola se posicionar entre as nações africanas que lideram a agenda oceânica, pois ou transforma o seu património oceânico numa força motriz de desenvolvimento, ou continuará a assistir ao desperdício de um dos seus maiores activos naturais.
Um Chamamento à Visão e à Acção
Pensar o futuro da Economia Azul em Angola não é um exercício meramente técnico. É um chamamento à responsabilidade colectiva: de decisores políticos, académicos, empresários e jovens investigadores. Pois todos têm um papel decisivo.
O momento exige coragem para ir além das soluções tradicionais. Exige:
– inovação,
– rigor científico,
– visão de longo prazo,
– e capacidade de atrair recursos diversificados.
A Economia Azul pode tornar-se uma das mais extraordinárias plataformas de desenvolvimento sustentável do País. Mas isso só acontecerá se Angola ousar imaginar mais, planear melhor e agir com determinação.
Os fluxos de investimento global deslocam-se rapidamente para sectores sustentáveis. As instituições financeiras internacionais procuram projectos sérios, tecnicamente robustos e alinhados com princípios ESG.
Se assim for, o País não apenas ampliará oportunidades de atrair investimento: transformará a sua relação com o oceano num dos pilares mais sólidos do seu progresso económico, social e ambiental.
Referências
IFC. (2025). Guidelines for Blue Finance Version 2.0. Document publisher. https://www.ifc.org/en/insights-reports/2025/guidelines-for-blue-finance?cid=IFC_LI_IFC_EN_EXT
DEMBENE, Nádia. Executivo angolano mobiliza financiamento para dinamizar actividade no sector das Pescas. Jornal Economia & Finanças, Luanda, 07 Nov. 2025. Edição n.º 945.
📌 #CapitalAzul
A #CapitalAzul é a série do Disruptive Ocean Hub Angola (DOHA) dedicada ao aspecto financeiro da Economia Azul. Um espaço de análise estruturada onde se discute e propõe como navegar recursos financeiros, públicos e privados, para projectos que posicionam o mar enquanto pilar económico de Angola.
Os conteúdos aqui publicados são desenvolvidos com base em investigação interna e escritos com apoio de especialistas, integrando abordagens contemporâneas de financiamento sustentável, blue finance, instrumentos de crédito e investimento, capital humano, risco climático, impacto social e modelos de desenvolvimento ligados ao oceano — da pesca e aquicultura às infraestruturas costeiras, energia, turismo e investigação científica aplicada.
Esta série é mais uma contribuição para aproximar visão estratégica, evidência científica e possíveis fontes de financiamento. Porque desbloquear financeiramente a Economia Azul em Angola exige mais do que vontade política — requer metodologias sólidas, avaliação de risco qualificada e capacidade de transformar recursos financeiros em valor duradouro para as comunidades costeiras e para o país.
💸 O mar é um património comum. O desafio da #CapitalAzul é garantir que a temática do financiamento esteja à altura dessa responsabilidade, promovendo soluções que aliem sustentabilidade, regeneração de ecossistemas, robustez técnica, impacto real e visão de longo prazo.
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