#Bússola Ep.1 – Angola e o Potencial Azul: É Hora de Traçar o Rumo!

Angola e o Potencial Azul: É Hora de Traçar o Rumo!

Angola possui um oceano vasto, diverso e cheio de potencial inexplorado. Esta é uma riqueza que nos desafia a olhar para o mar não apenas como um recurso, mas como um motor estratégico para o nosso futuro. Enquanto outros países já navegam a todo o vapor na Economia Azul, nós ainda estamos a ajustar as velas. Temos uma costa incrível, mas precisamos de uma bússola clara para nos guiar.

Em diversas nações, o mar impulsiona o crescimento, a inovação e a sustentabilidade. Para Angola, é chegado o momento de transformar esse recurso numa estratégia robusta e integrada.

A Economia Azul, sobretudo no Sul Global, não é apenas uma agenda ambiental ou económica — é também uma construção política que envolve decisões sobre soberania, justiça e acesso ao território marinho (Silver et al., 2015). Ignorar essa dimensão pode reduzir a Economia Azul a um simples catálogo de projectos e financiamentos, em vez de uma visão soberana de futuro.

Para concretizar essa visão, é fundamental focar em:

· Uma Estratégia Nacional Integrada para a Economia Azul: precisamos de um plano coeso e ambicioso.

· Coordenação eficaz entre os diversos sectores e instituições envolvidas: a união faz a força, especialmente no mar.

· Quadros legais claros para impulsionar a inovação costeira: segurança jurídica para quem quer investir e inovar.

· Acesso estruturado a financiamento internacional: parcerias e investimentos são cruciais para alavancar projectos.

· Alternativas sustentáveis para as comunidades costeiras: garantir que o desenvolvimento beneficie directamente quem vive do mar.

Há um ponto crucial que não podemos ignorar: o conhecimento sobre o mar que Angola já possui. Ele está presente na prática quotidiana, na investigação local e na vivência das comunidades costeiras. Não faltam ideias ou sabedoria; o que precisamos é de uma estrutura para reconhecer, integrar e projectar esse conhecimento num modelo de desenvolvimento sério, contínuo e regenerativo. Como defendem Ehler e Douvere (2009), uma abordagem ecossistémica exige integrar ciência, participação e política pública numa estratégia coerente, adaptável e coordenada entre sectores e escalas de governação.

Valorizar o oceano significa também respeitar e empoderar quem já vive com ele – e a partir dele – há gerações.

Sem uma estratégia definida, corremos o risco de perder tempo e grandes oportunidades. Perde-se também a oportunidade de construir uma Economia Azul que seja um verdadeiro reflexo da identidade costeira e cultural angolana, em vez de ser apenas uma cópia de modelos importados.

Como alertam Voyer et al. (2018), a imposição de modelos internacionais de Economia Azul, quando não adaptados às realidades locais, pode gerar exclusões, conflitos e invisibilização de saberes tradicionais. Angola deve construir a sua própria narrativa oceânica — ancorada no contexto angolano e africano, e não em fórmulas exteriores.

Pensar o mar com método e estrutura é o primeiro e mais importante passo para o transformar num pilar de prosperidade para Angola.

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Margarida Coelho

Sobre a “Bússola”

Esta é a secção oficial de produção de pensamento estratégico do Disruptive Ocean Hub Angola (DOHA). Um espaço de escrita estruturada, reflexiva e especializada, onde as ideias do DOHA ganham forma pública, sempre ancoradas em análise rigorosa e enquadramento político-científico.

Os conteúdos aqui publicados são desenvolvidos internamente, com foco na investigação em curso no DOHA, especialmente nas áreas de: Ciência Política, Relações Internacionais, Políticas Públicas para o Mar e Ambiente, Governança Oceânica e Desenvolvimento Sustentável.

Esta é a nossa primeira contribuição, e muitas outras virão. Porque desbloquear a Economia Azul exige mais do que boas intenções – exige método, continuidade e coragem intelectual.

O mar é de todos. A estratégia tem de ser de alguém.

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Ehler, C., & Douvere, F. (2009). Marine spatial planning: a step-by-step approach toward ecosystem-based management. Intergovernmental Oceanographic Commission and Man and the Biosphere Programme. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000186559

Silver, J. J., Gray, N. J., Campbell, L. M., Fairbanks, L. W., & Gruby, R. L. (2015). Blue economy and competing discourses in international oceans governance. The Journal of Environment & Development, 24(2), 135–160. https://doi.org/10.1177/1070496515580797

Voyer, M., Quirk, G., McIlgorm, A., & Azmi, K. (2018). Shades of blue: What do competing interpretations of the Blue Economy mean for oceans governance? Journal of Environmental Policy & Planning, 20(5), 595–616. https://doi.org/10.1080/1523908X.2018.1473153

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